“Eu sou uma pessoa eterna apaixonada por palavras. Música. E pessoas inteiras. Não me importa seu sobrenome, onde você nasceu, quanto carrega no bolso. Pessoas vazias são chatas e me dão sono. Gosto de quem mete a cara, arrisca o verso, desafia a vida. Eu sou criança. E vou crescer assim. Gosto de abraçar apertado, sentir alegria inteira, inventar mundos, inventar amores. O simples me faz rir, o complicado me aborrece. — Caio Fernando Abreu (via
i-n-v-e-n-t-a-r)
“Quando a noite chega e seus pensamentos a puxam para dentro de si mesma, não há escapatória. Ali, deitada sozinha com o reflexo da luz, se sente pequena e sozinha diante de tudo que a apavora durante o dia, mas que só faz efeito a noite. Quando todos estão dormindo, lá está ela: perdida na sua tristeza, encolhida no seu cobertor e desejando, mais do que nunca, um abraço curador. Mas é logo nesse momento que não há ninguém por ali, e já na manhã seguinte, está ela com um forte sorriso no rosto - como se nada estivesse acontecendo dentro daquele coração. —
Recanto (via
re-can-to)
“Eu diria que se um dia você quiser começar a escrever - não sobre sentimentos batidos, rimas gastas ou dívidas nunca pagas -, se um dia quiser se espremer, abrir uma ferida com a caneta, estancar o dedo no umbigo até tocar as entranhas, boa sorte. Você vai procurar a queda, de qualquer maneira, mas o fundo do poço não parecerá tão escuro. As paredes de lá são detalhadas com formas e cores e sonhos. Detalhes esculpidos a dedo, histórias que mudariam histórias, marcas que enlaçariam frutos, frutos que adoçariam marcas. As linhas vermelhas verticais e horizontais criarão vida, voarão para lábios, pescoços, poemas. A arte pela arte. Morte é vida que caiu em sono; é folha que esfarelou-se em gesto; é frio que descabelou-se pouco. Tudo se tornará pouco. Os pássaros não serão os mesmos, assim como as pessoas perderão o gosto anterior de adocicadas maçãs. O corpo se tornará templo, as mãos carregarão a culpa, os lábios entoarão pecados, os dedos espalharão mentiras. O segredo estará escrito em sua nuca, e você sempre achará que se contorcendo um pouco mais, conseguirá lê-lo. Os funerais se tornarão eternos, a noite estabelecerá seu trono, a música permanecerá inaudível, enquanto as coisas se despedaçarão no tempo. O cansaço chegará primeiro, o mistério pedirá passagem, o espelho permanecerá inerte, enquanto você esmurra a prata que lhe aponta falho. Falhará como homem, petrificar-se-á como pássaro, emudecerá como flauta, esquecer-se-á das promessas. Quebrará alianças, construirá muralhas, abraçará ruínas e virará passado. Passou-se, passaram, passou - virará tantos, beberá todos. Assinará seu nome nos pactos - mas quem é você? Assanhará as unhas para que elas fiquem excitadas ao sentir calor, quebrantará a alma por saber que de nada adiantará gritar. Surtará. Boa sorte se quiser tentar deixar de sentir as coisas de acordo com a ínfima carga que realmente possuem. Se um dia quiser partir da realidade, pular no aquário da desesperança, desencontrar-se nos retratos, nos bilhetes, nas pegadas, tenha boa sorte e, se me encontrar por lá, não me guie de volta para casa - não caberia mais morte nesse peito manchado. — Neemias Melo (via
acoiteecruz)